Marcha da Liberdade: cresce a mobilização da juventude paulistana


Milhares de pessoas, a maioria jovens, na Paulista: pelo direito de sonhar, de ser livre, na busca infindável da utopia. Foto: Reprodução.


Primeiro era a Marcha da Maconha, convocada para o dia 21/maio, para defender a descriminalização da droga. Foi proibida pela Justiça paulista na véspera. Os organizadores mantiveram a manifestação, mas mudaram o nome para Marcha pela Liberdade de Expressão. Foi reprimida pela Polícia Militar, com bombas de efeito moral, balas de borracha, spray de pimenta e algumas prisões. Para o sábado seguinte, dia 28, a criatividade dos jovens paulistanos pariu uma nova denominação, a Marcha da Liberdade, que foi também proibida pela Justiça, mas flexibilizada pela PM, desde que não houvesse menção ao uso da maconha. Resultado: a mobilização cresceu.

O vão do MASP (Museu de Arte de São Paulo), na Avenida Paulista, foi enchendo a partir do início da tarde. Quando o pessoal, depois de umas duas horas de concentração, marchou pela exuberante avenida paulistana e desceu pela Rua da Consolação (iam rumo à Praça da República), as estimativas dos repórteres rodeavam os 3.000, pelo menos o dobro dos que protestaram e foram reprimidos no sábado anterior, conforme comentavam satisfeitos os manifestantes. Perguntei a um repórter do Portal IG e ele me disse: “A polícia me falou em 1.000 pessoas, mas estou calculando de 3.000 a 4.000”.

O pedido diante da incrível barreira de policiais na frente do MASP: como se diz, gato escaldado tem medo de água fria. Foto: Reprodução.
O pedido diante da incrível barreira de policiais na frente do MASP: como se diz, gato escaldado tem medo de água fria. Foto: Reprodução.

A maioria, claro, era gente jovem, de aparência classe média, muitos de blusões escuros por causa do frio e grande parte ostentando ramos de flores e cartazes, uma infinidade de cartazes brandindo contra a censura, a violência, a repressão, a homofobia, o racismo, e em favor da liberdade de expressão, da paz, do direito de sonhar, da utopia. Bandeiras, literalmente falando, eram pouquíssimas: vi algumas do PSOL e do PCO, além de uma pequena faixa do PSTU.

O predomínio, portanto, foi de gente “não organizada”, para usar o jargão dos partidos e agrupações da esquerda, pelo menos se você pensa em organizações políticas mais institucionalizadas. Jovens que começam a sentir o prazer de passeatas e protestos de rua, a partir, por exemplo, de lutas pela legalização da maconha, contra a perseguição aos homossexuais, contra a matança de jovens pobres e negros nas periferias das grandes cidades, contra o aumento das passagens de ônibus e lutas dos estudantes e das feministas.

O expressivo protesto no vão do MASP, na Avenida Paulista. Foto: Jadson Oliveira.


O núcleo de dirigentes da manifestação, pode-se deduzir, vem desses movimentos mais recentes. Ninguém fala em nome de entidades partidárias e/ou do movimento social e popular. A maioria dos panfletos distribuídos não tem assinatura. De políticos, vi o deputado federal Ivan Valente, do PSOL-SP. De pessoas com maior visibilidade pública, vi o escritor Marcelo Rubens Paiva, filho do deputado Rubens Paiva, assassinado pela ditadura. Eles, os dirigentes, vão se revezando, quase sempre através de pequenos megafones e serviço de som precário, e gritando palavras de ordem ou fazendo rápidos discursos, com a multidão repetindo frase por frase. Assim conduziram os manifestantes e tentam dar um rumo ao movimento.

“A Espanha é aqui”

O manifestante bota no mesmo balaio: a presidenta Dilma Rousseff, os senadores José Sarney e Aécio Neves e o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab. Foto: Jadson Oliveira. 


Um deles fechou o mini-discurso com a consigna: “A Espanha é aqui”, forçando uma comparação e tentando se somar aos movimentos atuais de rebeldia que surpreenderam o mundo e se utilizam muito das redes sociais da Internet, começando pelos árabes e se espalhando pela Europa. A Espanha é hoje, para a nossa banda ocidental, a bola da vez, com várias cidades em rebuliço e um acampamento há duas semanas na Praça do Sol, em Madri.

A manifestação do sábado teve, portanto, essa aparência de espontaneidade, de coisa nova, um certo viés que os militantes das esquerdas mais tradicionais chamariam de anarquista. Era visível a tentativa de ampliar os temas em debate (falaram inclusive da luta dos metroviários, os trabalhadores do metrô) e a participação – o que deu resultado positivo – e também de politizar o movimento. Ao lado de gritos de guerra mais conhecidos, um bastante repetido foi “lutar, criar, o poder popular”.

Lembrando as "letras mortas" da esquecida Constituição Cidadã do velho Ulisses Guimarães. Foto: Jadson Oliveira.


Um outro foi específico: na Paulista, quando identificaram nas proximidades uma repórter e um câmera da TV Globo, começaram a gritar: “Oi, Globo, vai tomar no cu”. A moça se afastou um pouco e ficou de costas, mas o rapaz aguentou firme o desabafo da multidão. O ódio contra a Rede Globo, o escandaloso monopólio dos meios privados de comunicação no Brasil e baluarte da política anti-povo, parece entranhado: na Consolação, um carro da emissora, com uma equipe de reportagem dentro, foi chutado e cuspido, episódio que resultou na detenção de dois rapazes.

A polícia, claro, foi brindada ruidosamente o tempo todo: “Polícia, a liberdade é uma delícia” e “quem não pula, é polícia”, gritando e pulando. Mas não houve agressão e violência de monta, desde que não se considere agressão a presença de tantos policiais, em torno de uns 300. Podemos registrar um ato revoltante: tomaram uma grande faixa do Movimento pelo Passe Livre (MPL), que foi estendida na sacada do Conjunto Nacional (Avenida Paulista) quando o desfile ia passando. Os policiais filmaram toda a movimentação, inclusive instalados numa área interna do prédio do MASP. No mais, fizeram grande esforço para manter uma estreita faixa de trânsito para os carros numa das pistas da Paulista ocupada pelos manifestantes e iam controlando o tráfego.

Na Praça da República, centro velho da capital paulista, já escuro, houve alguns mini-discursos e a convocação do Dia Nacional da Liberdade para o dia 18 de junho. Houve ainda um enorme telão onde foram projetadas, na parede de um dos prédios, imagens de cartazes e manifestantes, e, finalmente, uma “festa” com direito a DJ.

(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano e vive viajando pelo Brasil, América Latina e Caribe. Atualmente está em São Paulo. Mantém o blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com).


Postar um comentário

Postagens mais visitadas