'MEU DEUS DO CÉU, MAS QUE PALPITE INFELIZ" - Noel Rosa



Houve quem considerasse infeliz a declaração do responsável pela segurança pública do Rio de Janeiro, com toda razão. Sem ter a pretensão de estar absolutamente certo, considero que a autoridade apenas revelou o ponto de vista comum a todas as nossas autoridades - do STF ao guarda de trânsito, do Presidente ao alcaide, dos ministros aos suplentes de vereador: para todos eles a população que vive na pobreza é lixo humano, cuja única razão de ser é, paradoxal e periodicamente, eleger os coveiros que a enterram no desemprego, na miséria, no abandono, no alcoolismo, na prostituição, na loucura, no fanatismo religioso ou no crime.

Não pode haver melhor reconhecimento, ao contrário do que pensam todos os fascistas que se locupletam do processo de saque das riquezas nacionais, da existência da luta de classes e de seu papel fundamental na organização da sociedade. Basta retomar o enunciado do chefe da polícia e observar lingüísticamente a supressão dos pobres do horizonte da classe dominante. Se já é grotesca a diferenciação adverbial entre zona nobre (Copacabana) e zona pobre (Coréia), ou seja, o reconhecimento explícito do tratamento desigual da população por parte do aparelho policial, torna-se trágica a parte do enunciado que não despertou tanto a atenção do público: aquela que diz que as favelas estão muito mais próximas da população (na zona sul). O pensamento do secretário assumiu uma clareza meridiana: A FAVELA NÃO FAZ PARTE DA POPULAÇÃO, O FAVELADO NÃO PERTENCE À POPULAÇÃO. EXISTEM, PORTANTO, DUAS REALIDADES: POPULAÇÃO E FAVELA.

De acordo com as idéias do secretário de insegurança, podemos observar que o aparelho policial é construído para proteger a burguesia e parte da classe média, os governantes, as autoridades e os empresários, e para levar o terror, a morte (em outras declarações o responsável por nossa segurança considerou-as normais, seguramente porque se trata de vidas de favelados) e o rótulo de traficantes a todos os habitantes das comunidades carentes do Rio de Janeiro.

A miopia desse governo fascista é assustadora. Tem-se a impressão de que não há uma preocupação sincera em combater o tráfico, e sim produzir ações impactantes, televisivas (parece que as operações são combinadas com a mídia, pois são filmadas quase em tempo real: como ações que deveriam ser sigilosas podem ser informadas à mídia com tamanha velocidade?) e mortais para as comunidades.

Quais as conseqüências de tais operações: digam uma só favela na qual, após tantas invasões policiais, combates e mortes, o tráfico tenha sido extinto? Qual o resultado da mega-operação no Complexo do Alemão? Táticas de guerrilha urbana, treinamento no Haiti, caveirões, homens superpreparados, Força Nacional. Tudo isso, fora o êxito momentâneo, os dez segundos de glória, serviu para quê? O tráfico continua no Complexo do Alemão. Se ele está momentaneamente enfraquecido, a sua raiz está mais forte porque parte da população percebe que o alvo não se limita aos bandidos que infelicitam a vida dos moradores, mas todos são alvos porque são pobres, subcidadãos, são seres invisíveis para a sociedade. Matar quatro, dez, quinze ou cem bandidos pode ser uma exigência do combate ao crime, porém não significa destruir as fontes que criam tantos marginais. Se a idéia fixa da polícia é matar, está condenada de antemão ao fracasso.

Quantos homens em armas dispõe o tráfico no Rio de Janeiro? Quantos ele pode arregimentar se quiser? Quantos homens ele pode buscar em outros estados? E se os traficantes perceberem que unidos constituirão um problema quase insuperável?

Como milhares de policiais não conseguiram acabar com o tráfico do Complexo do Alemão? Entendo que a mídia e a polícia não informem a dimensão do retumbante fracasso da operação, não só pela modo espalhafatoso, circense (um circo de horrores, é certo) como tudo foi veiculado, de acordo com o qual a violência do estado é um instrumento mágico para corrigir todas as mazelas das quais brota o tráfico, mas para não alarmar e espalhar o pânico na população, já com um alto índice de paranóia. O que é difícil de entender é a insistência nos mesmos erros.

Uso o termo fracasso pela desproporção entre a natureza gigantesca da operação e seus exíguos resultados, e por ela não ter conseguido a finalidade precípua, isso após quase duzentos dias! Como não dá para reconhecer que pessoas inocentes morreram em vão e outras (inocentes ou não) foram executadas, tudo desaparece do noticiário, tudo vai para debaixo do tapete.

Não se trata de achar que a violência não seja necessária no combate ao crime, leitura supérflua que os fascistas costumam fazer das críticas à ação policial. Trata-se, na verdade, de perceber que só a construção de uma aparelho policial popular, construído para defender o povo, assegurar tranqüilidade a todos os moradores da cidade, seja da favela ou do asfalto, respeitar as leis, defender as crianças e os velhos especialmente, auxiliar os portadores de deficiência, empregar a violência quando não houver outro recurso, poderá resolver os gravíssimos problemas criminais. Ora, tal aparelho policial jamais surgirá no modo de produção capitalista, todo ele um processo de culto à violência e de produção e valorização de crimes de toda natureza, grande parte dos quais sequer sofre efetivamente qualquer forma de combate.
O que fazer, então? Lutar por uma sociedade socialista e, como vivemos em uma capitalista, exigir o máximo comprometimento de todas as autoridades com práticas democráticas. Na conjuntura atual, essa luta aponta para o combate à concepção equivocada de segurança pública do coveiro (alguns usam o substantivo governo) de plantão do nosso estado, a colombianização da polícia carioca.


Matéria originalmente publicada em ODIAonline

23/10/2007 18:31:00 -


Beltrame: 'um tiro em Copacabana é uma coisa, na Coréia é outra' Segundo o secretário, é mais difícil realizar operações nas favelas da Zona Sul, uma vez que as favelas estão muito mais próximas da população.


Rio - Ao comentar operações recentes em favelas, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, afirmou nesta terça-feira que "um tiro em Copacabana é uma coisa, na Coréia é outra coisa"
Segundo o secretário, é mais difícil realizar operações nas favelas da Zona Sul, uma vez que essas estão muito mais próximas da população. Para Beltrame, a repercussão é muito maior já que há muitos prédios junto às favelas.
As declarações do secretário foram feitas em entrevista à rádio CBN, ao ele comentar que o tráfico estaria adotando uma nova estratégia, de migração para as favelas da Zona Sul, justamente porque operações de grande porte costumam ocorrer com menor freqüência neste locais.
A Ordem dos Advogados do Brasil reagiu às declarações de Beltrame. Em nota, a presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, Margarida Pressburger, disse que o secretário admitiu publicamente que moradores da Zona Sul recebem tratamento diferente do reservado aos moradores de favela.
"O morador de classe média da Zona Sul recebe tratamento diferente e tem direitos de cidadania que o trabalhador que mora na favela não tem, quando é obrigado a ficar no fogo cruzado dos policiais com os traficantes, tem sua casa invadida por uns e por outros e não tem onde se abrigar”, disse.
Para Margarida, realmente fica difícil imaginar uma operação policial, nos moldes mostrados pela TV, num condomínio de classe média ou alta. “Será que a polícia atiraria em quem corresse? Será que as pessoas que hoje criticam a defesa dos direitos humanos – para qualquer cidadão – apoiariam essas operações de guerra?” – questionou.
A entidade afirma que repudia "a política de confronto que mata inocentes”, mais ainda, argumentou, com base nos resultados registrados pelo próprio governo: menos prisões (- 23,6%), menos armas apreendidas (-14,3%) e mais mortos (33,5%)” na comparação dos primeiros seis meses de 2007 e de 2006.

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